ATENÇÃO!!! A utilização, total ou parcial, das idéias e dos textos abaixo, deverá indicar a autoria da Profa. Jimena Furlani. A referência bibliográfica deve ser feita da seguinte maneira, de acordo com a NBR 6023 – ago/2000 : 

FURLANI, Jimena. Educação Sexual. Disponível em: www.jimena.net.

Acesso em:(colocar a data em que acessou a página).  

EDUCAÇÃO SEXUAL

POSTURA de EDUCADORES/AS frente a sexualidade infantil

Somos estudantes do curso de Pedagogia Emergencial, da UNIVALI, estamos cursando a 1ª fase. Em sua opinião qual seria a postura adequada de um/a educador/a frente as manifestações da sexualidade infantil ?

 A postura da(o) educadora(or) sexual dependerá:

- do conhecimento que tem frente ao desenvolvimento infantil e, em especial da sexualidade infantil;

- dos significados pessoais e pedagógicos que confere a esses conhecimentos e sua intervenção pedagógica;

- da noção que possui sobre desenvolvimento integral da criança e, nesta visão, da importância conferida à sexualidade;

- da consciência que possui da limitação de sua formação e dos valores morais que trás consigo, resultantes de sua educação familiar, religiosa e social.

 

PRINCÍPIOS de uma EDUCAÇÃO SEXUAL

Que fatores devem nortear a elaboração de um projeto de educação sexual e a postura de educadores, frente a sexualidade humana?

Penso que a postura dos/as profissionais deverá estar baseada na superação permanente de suas dificuldades (conhecimentos, preconceitos, medos, incertezas ...) e na superação da intolerância e dos preconceitos de todas as ordens. Para isso, deve-se considerar que:

- crianças e jovens apresentam manifestações de sua sexualidade e não devem ser privados de informações que os possibilitem compreender tais eventos e a encarar o seu desenvolvimento de forma tranqüila e responsável.

- o trabalho prevê a discussão, não apenas de biologia, mas de temas que envolvem conhecimentos das áreas de antropologia, sociologia, psicologia, pedagogia, história, política e ética.

- a compreensão de si e da natureza humana é fundamental para que cada criança e jovem, conheça seus próprios desejos, vontades e limites. Ao definir suas escolhas cada um deve entender que todas as decisões têm conseqüências e que devemos buscar a responsabilidade, respeitando a escolha alheia.

- a sexualidade humana é parte integrante e indissociável da pessoa, não implicando, necessariamente, em seu aspecto reprodutivo.

- os valores sexuais e estilos de vida, mudam de pessoa para pessoa. É preciso respeitá-los e compreender que numa sociedade plural a diversidade de valores e crenças é um direito de cada cidadão (ã).

- os estereótipos sexuais são construções sociais e expressões de atitudes discriminatórias e intolerantes. Devem ser revistas e evitadas todas as formas de preconceito entre as pessoas entendendo que todos (as) tem valor e dignidade, merecendo respeito.

-     todas as formas de relacionamento, independente do nível de sentimento envolvido, devem ter o respeito mútuo como base, evitando-se quaisquer atitudes de coerção ou exploração entre as pessoas.

-     Se a Escola busca o desenvolvimento integral da pessoa a discussão e compreensão da sexualidade deve ocorrer, de modo sistemático e permanente, em todos os seus níveis.

-     Não há vivência da cidadania plena se as manifestações da sexualidade infantil, adolescente e adulta não são compreendidas e consideradas.

 

PROFISSIONAIS da EDUCAÇÃO e COMPREENSÃO do DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Na sua opinião os profissionais da educação têm subsídios para compreender o desenvolvimento da sexualidade infantil?

Eu diria que as pessoas, de um modo geral, independente de serem educadores ou não, são ensinados, desde o nascimento, ao completo desconhecimento da sexualidade humana, quer seja ela vista na infância, na adolescência, na fase adulta ou na terceira idade.

Educadores(as), dependendo da formação que tiveram durante seus cursos de graduação e, das situações de aprendizado que vivem no ambiente de trabalho, podem superar a deficiência teórica e prática, ao longo do tempo, e se tornarem aptos ao trabalho. Até porque, não há como tornar alguém PRONTO para a educação sexual ... o estudo, a reflexão, a análise da prática pedagógica, são processos permanentes e distintos. Com o tempo alcança-se a excelência e a competência no trabalho. O importante é começar.

 

PROJETO de ED.SEXUAL com ADOLESCENTES

Sou psicopedagoga e estou montando um projeto sobre sexualidade para um Núcleo de crianças e adolescentes de um  bairro carente de Ribeirão Preto. Preciso de sua ajuda no sentido de encontrar o início do fio da meada.

Penso que os (as) adolescentes precisam ser submetidos (as) a momentos de reflexão séria sobre, entre outras coisas, aonde seus comportamentos poderão levá-los ... que tipo de cidadão eles esperam ser, o que eles querem "dizer" aos adultos com cada tipo de tratamento ... enfim.

É responsabilidade de qualquer sistema escolar promover a educação integral da criança e do adolescente e, portanto, discutir a sexualidade (e promover a Ed. Sexual) é uma atividade que já devia estar sendo feita há muito tempo.

O aspecto que considero mais importante: nunca uma geração de adolescentes teve tão claro e tão evidente, para si, que é a prática sexual, nessa sociedade ocidental, que determina o ritual de passagem da infância para a vida adulta. No entanto, todo esse apelo sexual na mídia e na sociedade de um modo geral, não tem sido suficiente para que os (as) jovens adotem o comportamento do sexo seguro. Aponto a FALTA de EDUCAÇÃO SEXUAL como o principal motivo!!! Não falo da educação sexual tradicionalmente pensada ... biológica, médica ... que  se preocupa apenas em falar de gravidez, DSTs, HIV, reprodução, heterossexualidade. Isso também é importante mas não é suficiente!

O que é necessário fazer é levar os (as) jovens a pensarem nas responsabilidades da prática sexual ... eles precisam discutir relações de gênero, ou seja, como as idéias sobre o homem/masculino e a mulher/feminino são construídas na sociedade e, em conseqüência, como se constitui as diferenças entre ambos. Essa discussão é fundamental para a igualdade entre as pessoas e para superar a inércia das mulheres frente a um relacionamento, diante dos homens, nos casos em que se subordinam a violência e ao poder masculino e machista --- um dos responsáveis pela dificuldade da garota insistir o uso da camisinha, numa transa, por exemplo. Este é um aspecto ligado, diretamente, com a gravidez na adolescência.

A Educação Sexual deveria começar na INFÂNCIA!!!  Não vamos subestimar a capacidade de compreensão de nossas crianças. Antes mesmo da puberdade, já é possível conversar sobre menstruação, gravidez, ato sexual, higiene corporal, relações de gênero, vida social, namoro, expressão de afeto. Minhas pesquisas revelam que as crianças de hoje sabem muito mais sobre sexualidade do que minha geração e a geração de meus pais, sabiam há 30 anos atrás.

 

EDUCAÇÃO SEXUAL com ADOLESCENTES

Sou psicóloga recém-formada e estou trabalhando com um grupo de adolescentes que fazem parte de um projeto do Programa Capacitação Solidária. Um dos temas transversais a serem abordados é a Sexualidade. Não sei se você tem disponibilidade, mas o que eu quero é ter orientações acerca de como trabalhar esse tema com adolescentes, o que abordar.

Penso que qualquer trabalho, seja ele com crianças ou adolescentes, deve:

1. ser feito de modo contínuo e permanente, ou pelo menos, deverá durar um bom tempo, para que possam ser discutidas, além de informações, novas atitudes nas pessoas, frente a sexualidade coletiva e a sexualidade individual.

2. A seguir, ele deve ter a característica de partir das dúvidas existentes nas crianças e jovens ... dos temas mais urgentes. Cada grupo de jovens tem suas particularidades e interesses. No entanto, minha experiência de pesquisa aponta os seguintes temas, mais comuns, para adolescência:

* iniciação sexual com parceiros (a primeira transa - aspectos práticos e sociais),

* envolvimento sexual e afetivo com pessoa do mesmo sexo,

* auto-erotismo (masturbação) em meninos e meninas

* virgindade

* sexo seguro (evitando a gravidez e as DSTs)

* as desigualdades sociais frente aos sexos - discussão de gênero e como a sociedade vê homens e mulheres frente a

sexualidade.

* os rituais socioculturais na adolescência atual (o ficar)

Esta Educação Sexual deve ser conduzida e preparada por alguém que seja do agrado e da confiança dos jovens. Este é um processo lento de conquista. A(o) educadora(or) sexual deve ter claro que a confiança é a questão principal. Se os jovens não se sentirem bem, não se "abrirão"  na discussão e o trabalho ficará limitado.

 

Mídia, TV, erotismo e sexualidade infantil

Gostaria de saber, até que ponto a TV, as danças como do "É o Tchan", podem atrapalhar no desenvolvimento da sexualidade infantil. Ocorre uma erotização precoce ou não tem nada a ver ?

No meu ponto de vista de educadora sexual, os últimos 30 anos (no Brasil) foram marcados pelo final da censura que possibilitou um acentuado aumento de imagens, reportagens, situações sobre a sexualidade humana, na mídia (em especial na TV) e nas manifestações artístico-culturais, em especial na Música (MPB) ... com grande impacto na infância e juventude.

Em conseqüência, estamos vendo uma sociedade de maior visibilidade erótica e apelo sexual. Esta geração, que hoje vive na infância (dos 02 aos 12 anos) e na adolescência (12 a 18 anos, segundo o Estatuto da Criança e da Adolescência), nasceu sob o impacto, do que chamo, a última revolução sexual do século XX. Refiro-me ao surgimento do HIV e ao aparecimento da AIDS como um fenômeno que obrigou uma mudança comportamental (ou seja, do "amor livre" para o "sexo seguro").

Como mencionei em comentário anterior, nunca, uma geração de adolescentes teve tão claro e tão evidente (desde a infância), que é a prática sexual e a exibição pública da sexualidade, nessa sociedade ocidental, que determina o ritual de passagem a vida adulta. Ou seja, as crianças de hoje, sabem que, para se tornarem adultos, a sociedade espera deles, algumas posturas e atitudes. Eu costumo dizer que há alguns atos que a infância sabe que são "coisas de adultos ... coisas de gente grande", por exemplo: transar, fumar, beber, dirigir, ter as chaves de casa, ter carteira com dinheiro.

Penso sim, que todo esse universo sexual na mídia, acaba por erotizar o comportando infantil, mais do que suas mentes. As crianças imitam a obscenidade, simulam a malícia adulta, verbalizam e gesticulam palavrões sem muitas vezes entenderem o que estão fazendo.

Os pais e a escola incentivam este comportamento!!! Penso que não deveriam fazê-lo. Não estou dizendo que a sexualidade deve ser reprimida. Digo que a escola deve fazer sistematicamente o trabalho de educação sexual, desde as séries iniciais do Ensino Fundamental. No entanto, as brincadeira e danças eróticas só tendem a banalizar a sensualidade, acentuar a mulher como objeto sexual, reforçar os mitos do corpo e da estética perfeita para performance sexual e, expor as crianças tornando-as vulneráveis a situações de abuso sexual, por exemplo.

 

GRAVIDEZ PRECOCE ... INDESEJADA ... na ADOLESCÊNCIA

Sou estudante de Comunicação Social e estou produzindo uma Campanha Social cujo tema é Gravidez Precoce. Que reflexão você pode fazer sobre o tema?

Gostaria de fazê-la refletir sobre a expressão "Gravidez precoce". No meu entendimento a GRAVIDEZ PRECOCE é aquela que admite, tanto a imaturidade do corpo adolescente (sob o ponto de vista biológico) para uma gravidez, quanto a imaturidade emocional da garota como pessoa, considerando a indefinição de muitos aspectos da vida, como estudo, trabalho, auto-sustento. Uma precocidade que torna a criação de um filho um desafio difícil para muitas jovens.

Contraponho essa expressão com GRAVIDEZ INDESEJADA, que no meu ver é diferente de gravidez precoce. Na adolescência (período etário entre os 12 e os 18 anos) a gravidez pode ser desejada, por vários motivos, que vão desde a idéia de querer "segurar" o rapaz, querer casar e ter filhos, querer "sair" de casa, realizar o "sonho" feminino de se tornar uma "mulher" (lembre que a construção social do gênero feminino passa pela maternidade). No entanto, uma mulher de 35 anos, por exemplo, que engravida sem querer, enquadra-se no que chamamos gravidez indesejada.

Toda gravidez que envolver jovens entre os 12 e os 18 anos de idade, será considerada “na ADOLESCÊNCIA”.

Em função desses pontos de vista, penso que em qualquer trabalho honesto de educação sexual, é preciso desmascarar esse universo e fazer as adolescentes refletirem sobre essas posturas e as conseqüências decorrentes de cada ato individual.

 

DERRUBAR MITOS e TABUS SEXUAIS

Como trabalhar a sexualidade de forma adequada derrubando mitos e tabus?

Primeiro, admitindo que eles existem e, depois, falando abertamente sobre eles.

MITOS SEXUAIS, podem ser compreendidos como uma idéia falsa sem correspondente na realidade, ou, concepções errôneas e falácias criadas a partir de rumores, superstições, fanatismo ou educação sexual falha. Por exemplo: os mitos criados em relação ao ato de manipular os genitais com as mãos (masturbação) que dizem que cresce pelos nas mãos, espinha no rosto, causa debilidade mental, secura, magreza, impotência, etc.

Os TABUs SEXUAIS são aspectos da sexualidade que a sociedade "não autoriza", ainda não "admite", que de certa forma, não concorda". Alguns exemplos: o sexo anal, o envolvimento afetivo e sexual entre pessoas do mesmo sexo (homossexualidade), a masturbação, a iniciação sexual da mulher antes do casamento, etc.

Essa discussão precisa, necessariamente, perceber como cada mito e cada tabu foram inventados e construídos nas sociedades. Para isso, torna-se imprescindível o conhecimento histórico e político da humanidade e das suas instituições sociais como a Igreja, o Estado, as Leis, a Escola, a mídia.